As páginas da imprensa baiana registraram um retrato duro da segurança pública na Bahia durante o último governo estadual do grupo político hoje liderado por ACM Neto. Em 16 de novembro de 2005, a manchete de A Tarde era direta: “Policial paga pela arma que usa”. O cenário descrito pelo jornal ia muito além de uma deficiência pontual. Em algumas delegacias de Salvador, equipes de plantão com cerca de cinco policiais dispunham de apenas duas ou três armas. Agentes relatavam que precisavam tirar dinheiro do próprio bolso para comprar armamento e munição para trabalhar e se proteger.
Na página interna, outra manchete resumia a situação: “Policial compra arma para trabalhar”. O próprio Estado admitia, que não fornecia o chamado kit mínimo de segurança. Faltavam armas, munição, coletes e equipamentos de comunicação. A reportagem registrava ainda que 30 policiais haviam sido mortos a tiros naquele ano.
O quadro era reconhecido pelo próprio comando policial. Sob o título “Comando reconhece defasagem, mas minimiza problema”, dirigentes das polícias admitiam carências. Policiais denunciavam coletes vencidos e falta de equipamentos. Em uma das unidades citadas pelo jornal, um grupo de 15 agentes dispunha de apenas cinco coletes e um rádio HT.
Não eram denúncias isoladas. Em janeiro de 2006, o então deputado federal Colbert Martins levou a situação à tribuna da Câmara dos Deputados. Disse que havia delegacias na Bahia onde cinco policiais trabalhavam com duas armas e que existiam coletes à prova de bala vencidos havia tanto tempo que não podiam mais ser usados. A Rádio Câmara registrou ainda denúncias de falta de munição, escassez de combustível para viaturas e condições precárias de trabalho.
Meses antes, em julho de 2005, outro flagrante havia chegado às páginas de A Tarde. A manchete “Polícia usava 60 carros apreendidos” relatava que, em Feira de Santana, veículos furtados e posteriormente recuperados, que deveriam permanecer sob custódia até a devolução aos proprietários ou seguradoras, estavam sendo utilizados por policiais em diligências. O delegado responsável determinou o recolhimento dos automóveis.
Outro recorte daquele período estampava “Segurança pública em descrédito”. A reportagem mostrava módulos policiais de Salvador em condições precárias, alguns desativados ou funcionando de maneira limitada, enquanto moradores recorriam cada vez mais à vigilância privada. O quadro registrado pelo jornal era o de um sistema em que o cidadão buscava proteção particular ao mesmo tempo em que os próprios policiais reclamavam da ausência de estrutura básica para trabalhar.
A precariedade chegou também ao debate nacional. Em maio de 2006, Colbert Martins voltou à Câmara para falar especificamente de Feira de Santana: eram 87 mortes em pouco mais de quatro meses, diante de 160 assassinatos em todo o ano anterior. O deputado apresentou números baixos de elucidação dos crimes e responsabilizou a falta de estrutura para limitar a atuação das polícias.
No fim de 2005, A Tarde ainda estampou na primeira página: “Polícia adverte: não viaje à noite”. A recomendação era da Polícia Rodoviária Federal. A PRF orientava quem viajasse para o interior no Ano-Novo a circular durante o dia e evitar locais isolados devido, entre outros fatores, aos assaltos registrados naquele período. O próprio jornal recebeu depois uma carta de leitor questionando o absurdo de uma realidade em que a orientação policial ao cidadão era restringir seus deslocamentos por medo da criminalidade.


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